Carnaval

Como se costuma dizer, nem só de pão vive o Homem. Ele precisa de movimento, de alegria, de beleza, de encantamento, de tudo capaz de fazer com que ele tempere os seus nervos e se sinta feliz, arrastando nessa onda de felicidade todos quantos estejam em seu redor.

A ilha de São Nicolau tem a sua característica especial de possuir gentes capazes de organizar actividades com a simples finalidade de alegrar a si e aos outros e de criar um clima aprazível a todos quantos a demandam.

Um exemplo concreto é o Carnaval. Nascido ou trazido ainda nos primórdios do sec. XX, foi crescendo, crescendo, passando por fases diversas, de simples mascarados a grupos organizados, cantando alegremente pelas ruas da Vila da Ribeira Brava e não só.

Alguns foliões mascaravam-se e animavam as pessoas que se deslocavam ao centro da Vila para se divertirem com as momices dos outros. Com o passar dos tempos começaram a aparecer em forma de grupos organizados.

Então, em 1952, um desses grupos organiza-se e veste-se uniformemente com a farda de marujos. O grupo já vinha com o nome de Equador. Festejavam tanto na Vila da Ribeira Brava como no Calejão. No estandarte exibiam o símbolo do Equador. Porém, por razões políticas, foram alertados de que não deviam continuar a utilizar tal símbolo. 

Nessa altura, tinham regressado do Brasil alguns jovens amantes do Carnaval e, no auge da folia, um deles, o Djandja, disse que a festa estava que nem o Copa Cabana.

A tradição diz que o Carnaval de São Nicolau se festeja durante três dias: sábado à noite, domingo e terça-feira, todos à tarde. Os grupos com mais destaque são o Copa Cabana e o Estrela Azul.

O Carnaval é visto como uma das manifestações populares de maior destaque em todo o município da Ribeira Brava visto que as suas particularidades demonstram de uma forma expressiva o substrato cultural do Sanicolauense.

É de salientar que a concorrência entre os grupos é revelada na confecção dos trajes, dos andores, na organização dos desfiles e nas cantigas com o fito de melhorar a qualidade. Os grupos não disputam prémios, optando apenas por receber um mero apoio financeiro ou em material para a confecção dos trajes e andores. Os preparativos começam logo após o ano novo, no maior sigilo visando uma renhida competição. Enquanto que nas outras ilhas utilizam o gesso na confecção dos andores, em S. Nicolau utilizam a técnica de “Smebód”, que consiste numa mistura de trigo com pasta de papel dissolvido em água fervida com o qual modelam as figuras.

Copa Cabana

Copa CabanaNum encontro do grupo Equador do qual faziam parte o Sarafe, Cândido de Ti Toi, César Pimentel e António Sacristão, nasceu o Grupo Copa Cabana substituindo o Equador, e o símbolo do Grupo passou a seu um grande coração simbolizando a Vida e o Amor. Nascia assim, um dos grupos mais populares de São Nicolau e de Cabo verde.

As cores vivas dos trajes e do estandarte do Grupo foram inspiradas duma revista colorida que exibia a coroação da Rainha Santa Isabel.

Então, em 1959, aparece, pela primeira vez, nas ruas da Vila, um vistoso Grupo ostentando um estandarte com um imponente coração vermelho que simbolizava a Vida e o Amor. Trazem uma alegria contagiante, sambando e pulando ao som das suas lindas canções. À frente segue o imponente Rei, o Ferreirinha de Nha Paixão, ladeado pela majestosa Rainha, a Lalache de Nha Naninha. Desta forma airosa, surge, pela primeira vez, nas ruas da Vila da Ribeira Brava, o Grupo Carnavalesco Copa Cabana.

Começam então os desfiles nocturnos sugeridos por Sarafe. Assim, numa harmoniosa simbiose e numa profusão de Som, Luz e Cor, o Carnaval ganha mais vida. Os anos vão passando e, de ano para ano, surge um Copa cada vez mais lindo, mais vistoso e muito mais pomposo.

Copa CabanaA imaginação fértil dos artistas traz para as ruas um colorido cada vez maior até que aparecem os andores, autênticas obras de arte, cada vez mais sofisticados, fazendo do Carnaval de São Nicolau uma das festas mais lindas e animadas de Cabo Verde.

O Carnaval entranha-se cada vez mais no sangue e no espírito do Sanicolaense e é com certa expectativa e entusiasmo que se aguarda o Fevereiro de cada ano, pois, a inspiração e a capacidade dos elementos que trabalham os preparativos do Carnaval não têm limites. É a garantia de que os seguidores dos fundadores do Copa Cabana vão sempre a aperfeiçoar-se numa competição saudável com o seu eterno rival, o Estrela Azul, em que ambos vão ganhando pontos a cada ano e elevando cada vez mais alto o brilho e o nome do Carnaval de São Nicolau.

Estrela Azul

Estrela AzulEstrela Azul, é hoje, sem dúvida um dos esteios do carnaval em São Nicolau.
Surgido do extinto Ladeirista, o Grupo Carnavalesco Estrela Azul, fundado na década de 60, por um grupo amante das festas do Carnaval é hoje uma referência bem marcante do Carnaval em São Nicolau e não só.

Em 1964 mais propriamente dito o grupo foi reconhecido, tendo como fundadores os senhores “Zé da Luz, Tony Nha Barba e Toy Marinha. Nesse mesmo ano registou-se o primeiro desfile do grupo, trajando à Marinha e trazendo como rei Antonio João Almeida (TOY MARINHA) e Rainha Elci Mariano (Elci de Ana Zepa), tendo desfilado primeiramente na zona da Fajã, posteriormente pelas ruas da Vila da Ribeira Brava. Após o desfile seguiu-se para a Sala de Festas na zona de “Rotchinha”.

O desfile era feito marchando pelas ruas da Ribeira Brava, partindo da zona de Ladeira (Largo casa Crispina), passando por S. João, Monte Alegre, meio D’Stancha, Chãzinha terminando no Terreiro.
A confecção do primeiro andor ocorreu em 1980 com a denominação de “Standard”. Trazia alguns escritos sobre o grupo seguido por um outro chamado “capelinha”.

O grupo Estrela Azul foi sempre dotado de uma postura populista e amiga, sendo sempre o primeiro a tomar a iniciativa de os seus reinados visitar os reinados dos outros Grupos, uma tradição até agora seguida, e de grande valor e importância.

Estrela AzulCom uma alegria contagiante, o Grupo Estrela Azul vem emprestando às ruas da Vila da Ribeira Brava um colorido cada vez mais vistoso com os seus reis e reinados vestidos a rigor, exibindo nos seus andores, ricamente adornados, motivos de cariz pedagógico, enaltecendo temas de elevado valor tais como: SAMBANDO CONTRA O SIDA e AGUA É VIDA (2005); S. NICOLAU, BERÇO DA INTELECTUALIDADE (2006); JUNTOS NO ESPAÇO E NA PROTECÇÃO DO MEIO AMBIENTE (2007) e, em 2008, A FAUNA E A FLORA.

Hoje, o trabalho do Grupo Estrela Azul é valorizado, é respeitado, e está bem entregue nessa nossa juventude generosa que tem sabido colocar o seu nome nos lugares cimeiros.